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sábado, 8 de novembro de 2008

A PROFECIA DE MARGARIDA - Parte III


Lúcio na vida de Margarida.


O telefone toca, Charles atende e é o Lúcio – “Oi, doutor Charles Pinheiro, o que vossa senhoria quer comigo?”

- “Ué, ligando de Honduras? O que faz ai? Não tem uma hora eu liguei para o México e você atendeu...”

- “Ah! Está vendo como sou bonzinho? Você pagou o telefone para o México e eu do México para cá e ainda estou te retornando de um telefone público... E você sabe como são os telefones daqui. Diga logo o que quer!”

- “Como faz isso?”

- “Ué!!! Transferência, ligam para minha casa, em Acapulco, e eu recebo no meu celular em qualquer parte do Mundo, até ai, em Corrupo... Mas estou em Honduras. O que quer, diga logo!”

- “Eu já disse. Quero que você vá para o Estado de Soborno, aqui em Corrupo, para proteger uma amiga”- “Uma velha ricaça que deu uma volta nos seus protegidos financistas?”

- “Não. Uma pobre e bela vereadora, que eu gosto muito e que vai ser minha mulher”

- “Há,há,há,há!!! Não acredito. Ainda mais vereadora. Conte outra, Doutor!”

- “É verdade. Mas isso não importa. Depois você confirmará. Quero saber qual é o seu preço”

- “Eu ainda não sei de nada. Como dar um preço.”

- “E uma vereadora honesta ou inocente que eu quero protegê-la sem que ela perceba senão eu a perco. Não tem nada demais”

- “Ta... Tente me enganar e sabe o que acontece. Ela viaja muito, freqüenta cassinos, bares, sítios...?”

- “Não. Não viaja, mas se viajar você acompanhará, claro. Não freqüenta cassinos, aliás, aqui em Corrupo não existem cassinos. Não vai à sítios, fazendas, grande festas de galas... É só uma vereadora suburbana lutando pelo seus direitos e direitos de alguma comunidades corruptas contra outros corruptos, acreditando que todos são santos.”

- “Ela está em perigo mesmo? Terei de contratar milícias?”

- “Em perigo ela está. Quem não está em Corrupo? Mas ela mais, porque está mexendo em casas de marimbondos”

- “Charles, me mande 500 mil reais. Depois eu vejo o que mais. Mas cada despesa que eu tiver por fora, caso seja obrigado a acompanhá-la em cassinos, alugar aviões... Correrá por sua conta. Cobrarei por fora”

- “Reais?”

- “São reais. O que eu vou fazer com Euros em Corrupo? Dólar eu não uso mais... Hehehehe!!! Eu não quero perder o meu dinheirinho que tanto me sacrifico para ganhá-lo.

- “Está legal. Mas pode ser que você precise ficar todo o mandato com ela e eu não vou ficar te pagando 500 mil por mês. Pense ai. É só uma vereadora. ”

- “Pare de chiadeira, porque eu não estou te cobrando, já que se trata de um caso seu particular. Você sabe como trabalho. Eu vou está lá em todos os momentos críticos, fora disso, estarei vigiando dia e noite, de longe, através de uma boa equipe. Fique tranqüilo, porque sempre cumpro os meus compromissos. E depois eu te cobrarei somente as despesas, que não deve chegar a 100 mil por mês. Mas se não quer. Contrate alguns seguranças, obrigue-a andar com eles a tira-colo... E pronto.

- “Não. Eu quero você lá. E não deixe ninguém saber que você está protegendo-a, nem a Doutora Carmen Capelli... ”

- “Carmem Capelli? Então a coisa é séria?”

- “Não é. A doutora Carmem está aposentada e eu pedi para ajudar na criação de uma Associação lá, para ajudar a minha amiga. É só “

- “Quando eu vou, então?”

- “Imediatamente. Você tem conta em banco aqui em Corrupo?”

- “Tenho. Sabe que tenho, mas com pouco dinheiro. Eu vou te passar o número e você deposite o dinheiro ai, porque eu já vou me preparar para mudar o meu habitat de forma não perder a vida e me divertir também”.



* * * * *


Lúcio chega ao Rio às 14 horas - foram quatro horas de Santiago do Chile a São Paulo e mais duas horas para Soborno, fora o tempo de Honduras à Santiago do Chile...

Comenta para si mesmo, enquanto pensa no tempo que levou, procurando um taxi – “Este planeta ainda está muito atrasado. A gente passa muito mais tempo em transportes que trabalhando...” - E segue para Copacabana; entra numa Imobiliária e se dirige à recepcionista – “Oi, boneca!!! Minha chave?”

A recepcionista olha o gringo que lhe dirige: É um sujeito grande, moreno, com um corpo malhado e todo dourado. Fica saliente e gagueja – “Chave? Quem é o senhor?”

- “No mundo da moda eu sou o Lúcio Cantagalo, mas você tem autorização para me chamar de Lúcio....” – Olha para a mulher de cima abaixo e continua – “Eu aluguei um apartamento para uma temporada de dois meses com o Silvio Cunha e ele me disse que a chave estaria aqui? Procure-o e peça a minha chave. Deve está escondido por ai. Cheguei agora do aeroporto e estou doidinho para tomar um banho”. – Mente piscando para a garota e diz, pois está estressado de tanto ficar parado – “Quer vim comigo?”

- “Espere ai” – Diz a garota com um sorriso indecente e some noutra porta aparecendo com um baixinho e franzino que vem ao encontro dele com as chaves e um contrato para assinar.

Lucio sai da imobiliária passa por uma agência de automóvel e dar R$ 10.000 por Um Monza, 92; entra numa loja de informática compra um computador completo (?) e um celular pré-pago; entra noutra loja de xerox e de impressão e encomenda 200 cartões como se fosse um profissional de silkscreen, com o seu nome, número do celular que comprou, espaço para escrever o número do telefone do apartamento que alugou e de um endereço fictício dali mesmo, para pegar dentro de uma hora, e vai à um bar, ‘pé sujo’ próximo, para esperar. Quer saber como anda o Rio que é a Capital do Soborno, pois faz um ano e meio que esteve ali.

Ele não gosta de perder tempo. Quer descansar e se divertir também, por isso que as horas de trabalho têm que ser aproveitado ao máximo.

Entra no pé sujo, pede uma cerveja; o cara pergunta qual a marca que ele quer, ele olha para o cartaz, não ver nenhuma propaganda de cervejas holandesas e indica uma Brahma, dar um gole no copo e redescobre o sabor refrescante de uma boa cerveja gelada, que só em Corrupo existe, e saboreia dois copos quase como água, sob os olhares dos demais freqüentadores. Rir quando se sente observado e comenta – “Boaaaa! Faz um tempão que não bebo uma dessa. Eu estava com saudades”

Um gaiato que está próximo, brinca com ele – “Esta ai não é a ‘boa’. A ‘boa’ é a Antártica. A que vocês está bebendo é a da Zeca-hora” – E rir

- “Esta é gostosa. Gostei e quando eu gosto não troco. Não quero misturar os sabores e estragar o meu paladar” – Responde e pergunta – “Como está o Rio atualmente? Faz tempo que estou fora.”

- “Em que sentido?”

- “Dinheiro, violência, segurança, mulheres... A vida em geral aqui no Rio, em Soborno, e em Corrupo?”

- “Pra mim está ruim” – responde o interlocutor que também bebe uma cerveja e tem cara de operário, lamentando – “Essa semana, hoje já é quinta feira, eu só conseguir 100 paus” – Diz se referindo a 100 reais. – “Segurança não existe e a violência está demais; todos os dias têm assaltos por ai, roubam até a nós que trabalhamos fazendo biscates nos apartamentos. Muitos mendigos, muitos trombadinhas, muitas vadias e todos sem dinheiro, pegando o que dar pra pegar”

- “Então, eu voltei numa época ruim?”

- “Depende. Tem muitas pessoas ganhando dinheiro, também. Os pastores de igrejas, banqueiros, donos de financeiras, servidores públicos, polícia e bandidos... O que você é?”

- “Eu? Faço desenhos, silkscreen... por ai... Mas estou querendo somente me aperfeiçoar. Não estou maluco atrás de dinheiro...”

- “Então, pode até ganhar dinheiro se tiver pistolão, porque propaganda tem demais, por ai... E você parece estrangeiro. Com essa aparência se souber ganha mesmo, porque o povo corrupano dar mais valor aos estrangeiros.”

Lúcio pede outra cerveja, bebe conversando e sai dali vai direto para apanhar os seus cartões, pega o carro e segue para o apartamento alugado. Agora sim, desejoso de um banho e uma esticada gostosa em um confortável colchão.

Chega ao prédio e encontra tudo fechado, estaciona o carro na frente da portaria, desce e aperta a campainha da ‘apê’ do porteiro, quando uma moto com um jovem na garupa pára perto de seu carro olhando para dentro.

Ele chega perto e quando vai perguntar o que estava havendo é rendido pelo carona que desce da moto com um revolver calibre 32, da Taurus, na mão direita e ele exclama – “Cachiporrazo!!” - E quando o carona se aproxima mais ele pegar a mão do moleque numa velocidade incrível, com uma chave de braço jogando o rosto do garoto em direção a seu pé que o recebe com um chute curto, seco e violento, enquanto gira sobre si mesmo lançando o outro pé no capacete do que estava na moto, jogando-o a dois metros fora do veículo. Pega a arma, essa se abre como mágica fazendo o tambor sair e os projeteis escorrer por suas mãos, esconde a arma retirada do bandido em sua cintura e se abaixa fingindo que está cuidando do garoto quando algumas pessoas aparecem. – “Eles caíram” - diz à uma senhora e emenda – “Vou chamar a ambulância. Parece que eles desmaiaram” – Se dirige para o porteiro eletrônico que pergunta repetidamente – “Quem está ai? Com quem quer falar?”

- “Bem... Meu nome é Lúcio Cantagalo, eu aluguei a cobertura 1, tenho as chaves, mas quero guardar o carro na garagem. Pode descer aqui?”

- “Um momento. Estou indo” – Diz o porteiro.

Lúcio se volta para o tumulto que se formou em volta do motoqueiro e seu carona. Chega perto quando vê os dois se levantando, ainda tontos, e se dirigindo para a moto, percurso em que são ajudados pelos transeuntes e somem dali sem dizer nada. E ele comenta alto, para todos ouvir – “Coitados!!!”

O Porteiro chega perto, abre a porta e ele pergunta – “Você que é o porteiro?”

- “Sou..” – observando o tumulto de gente que está se dispensando e pergunta – “O que houve ai?”

- “Uma moto caiu”

- “Bem feito! – exclama o senhor - Vai ver é um daqueles bandidos que andam assaltando as pessoas nas ruas e nos carros” – volta para o Lúcio, aponta para o carro – “ É seu?”

- “É. Abre a garagem para eu guardá-lo” – fala Lúcio lhe entregando o contrato.

O porteiro abre a garagem dizendo aonde é sua vaga. Ele guarda o carro, pega suas malas, seu computador novo e trás para a recepção, enquanto o porteiro se comunica com a Síndica que também desce para excepcioná-lo.

Lúcio abre a porta do apartamento, pensando na síndica, uma senhora de uns trinta e poucos anos, toda sensual – Comenta alto para si mesmo – “Se eu não encontrar alguns filés, já sei aonde tem uma costelinha para matar a minha fome”

O apartamento é grande: uma sala grande, uma cozinha também grande com área de serviço anexa ao quarto de empregada; no corredor próximo a sala tem um banheiro social bom, mas tirando a cozinha todos os moveis estão cobertos com panos brancos. Ele escolhe a suíte, entra, joga suas malas no chão; coloca o computador em cima de uma cômoda, depois de tirar a coberta; se deita na cama se esticando todo ficando por alguns minutos, quando começa se despir.

Abre uma das duas malas, tira uma toalha e um roupão e se dirige ao banheiro aonde tem uma banheira de hidromassagem, liga tudo e fica de molho.- “Pregunta tú mismo!” – Pensa alto quando refleti sobre Doutora Carmem Capelli.

A ex Juíza atuou contra ele num processo na América do Norte que lhe deu um prejuízo de U$ 2 milhões, seu Green Card, seu passaporte, seis meses de cadeia e o nome que usava na América. Por causa dela, Ele teve de refazer toda sua vida com o nome Lúcio Cantagalo. Ainda bem que pode contar com a ajuda do doutor Charles Pinheiro.

Levanta-se da banheira num impulso, peladão; vai até seus pertences espalhado sobre a cômoda, pega o telefone e liga para Charles com o celular pré-datado que acaboude adquiri, para deixar o número registrado na bina do telefone 2 do Charles. – “Doutor, sou o pintor. Quero falar com você. É urgente!” – Desliga e volta para a banheira, se enxágua, se enxuga e se enrola no roupão, saindo pela casa para arrumar e ver o que falta para tornar aquele apartamento mais parecido com o seu lar por dois meses, se não fora aprovado a proposta que fez para comprá-lo.

Observa que os moveis da sala, grande o suficiente para também servir de copa, são enormes e escuros, de madeira caviúna: uma mesa com vidros, um Bufê (espécie de cômoda de sala) enorme escuro com portas de vidros; uma cristaleira do mesmo material, e algumas mesinhas da mesma madeira... Só o sofá parece ser novo, mas vagabundo e totalmente fora do estilo sombrio do ambiente, a sala tem uma janela para frente da rua, longe da praia, e outra porta dupla (de correr saindo para uma área jardinada; A cozinha tem armários de fórmica amarela, encabeçado por madeira de cerejeira, também sem estilo e de mau gosto. A iluminação na sala é fraca, mas a cozinha parece ser bem iluminada e ainda com ajuda da claridade que entra pela área de serviço – “Poxa!!! Preciso clarear o ambiente na sala. Tomara que os donos aceite a minha proposta de compra” – Pensa quando o outro telefone toca.

Olha o código de área 82 e imagina ser Doutor Charles – “Doutor, por este telefone, não. Liga para o pré-pago que comprei aqui... Estou esperando” – Charles desliga e volta a ligar.

- “O que foi Lúcio? Estou de um telefone público. Pode falar a vontade. Mas antes me diga se já começou a atuar.”

- “Não. Cheguei a pouco e ainda me instalo. Aluguei uma cobertura em Copacabana que mais parece um museu. Deve ser de uma velha caquética, como a Doutora juíza.”

Charles rir do outro lado e comenta – “Parece que não conhece o Rio. Deveria saber que Copacabana é o museu do Rio, ai mora os velhos. Deveria ter perguntado antes aonde encontrar um apartamento moderno, já que não gosta de hotéis”

- “Eu sabia. Mas aqui eu tenho tudo e em outro bairro não teria. Vou dar um jeitinho. Mas deixa isso para lá. Quero saber se eu posso me vingar da Doutora Carmem. Só lhe arrancar um braço?”

Charles rir de novo e diz – “Não! Está doido?! Eu preciso dela. Uma de sua obrigação é protegê-la também”

- “Isso não!...”

- “Você é profissional, Lúcio” – Corta Charles – “Agora ela faz parte da mesma equipe. Vocês estão em Soborno para ajudar uma pessoa. Só que agora do mesmo lado”

- “Ela me fez ficar seis meses na cadeia e hoje eu ainda sou conhecido de toda a polícia do mundo, mesmo usando várias identidades”.

- “Você não é percebido. E se não é percebido, não aparece e por isso te chamei. Não existe ninguém melhor que você para investigações e proteção. Às vezes eu não concordo com seu modo de agir, mas sei que só de sua maneira conseguimos avanços. Na época que a juíza fez o relatório contra você, ela não esperava que você ficasse para defender um cartão e uma conta bancária. Não tinha como dizer que você trabalhava para o FMI em investigação sigilosa... ”

- “Mas era dois milhões de dólares, meu nome, meu Green Card...”

- “Eu lhe devolvi o dinheiro, Lúcio. Não poderíamos te defender. Fiz o que eu pude na época... ”

- “Não perdi somente dinheiro...”

- “Perdeu um nome, uma a identidade e você têm tantas. E perdeu porque você cismou de encarar o processo em defesa de uma identidade que assumia personalizando um papel... E contra minha vontade. Devia ter sumido como orientei, abandonado o personagem. Eu pedi. Setivesse seguido aminha orientação não teria sido preso, não teria sido fichado e só seria procurado pelos policiais do Texa. Hoje você tem seu DNA, suas digitais e até a retina no FBI, Interpol... Mas ganhou experiência”

-“Ta.. O erro foi meu. Um dia eu a pego de jeito. Se essa velha caquética não morrer antes... ”

- “Eu preciso dela, Lúcio. Confie em mim. Desobstrua todos os obstáculos que entrar em sua frente. Para isso você está ai. Tem que cuidar da Margarida e da equipe que vai auxiliá-la. Nada pode acontecer a eles. Mas não apareça. Não quero que haja conflitos. Faça o que precisar, mas ninguém vai assumir sua defesa. Entenda! E seja o profissional que sempre foi sem deixar se contaminar por vinganças e sem deixar rastros ”

- “Ok... Está legal. Agora são 20 horas e ainda estou me instalando. Amanhã devo me informar sobre o caso, mas tenho muita coisa para fazer aqui ainda... Vou passar o dia comprando coisas e limpando esse lugar. Mesmo porque gosto que a minha casa seja útil e assim não passa de um dormitório. Devo procurar alguém para me ajudar ainda hoje.

- “Deixa o telefone que eu tenho um, que achei. Vou colocar um chip e depois te mando o número. Boa sorte!” - diz Charles, desligando o aparelho.

Lúcio desliga resmungando – "todavía es mi culpa ..." – coloca o telefone na mesa e segue para a varanda jardinada, descobre uma mangueira e molha as plantas enquanto admira o jardinzinho parecendo gostar. Tem até banco de madeira. E da mesma madeira escura. Senta ali no escuro, se estica todo sobre o luar sem saber ainda onde poderá acender as lâmpadas do local.

Lúcio liga para o porteiro e pede a ele uma empregada, se possível diarista, pede também para lhe indicar um eletricista e um marceneiro para trocar suas fechaduras e a fórmica do armário da cozinha. Alguém rápido.

O porteiro lhe passa os telefones dos profissionais e ele liga ainda à noite combinando para que aparecerem na manhã seguinte. Para isso é obrigado oferecer mais que os outros. Veste-se e sai para a noite, pensando em ir até o município de Zé Mané saber mais da tal Margarida.

Na garagem pega a arma que tomou dos moleques, quebra com uma chave de boca, coloca num saco e põe em cima do banco do carona para jogar na primeira lixeira que encontrar. Não quer ser pego em alguma blitz com uma arma, ainda mais uma arma como aquela. Podia pegar e mandar para uma delegacia ou entregar a um policial qualquer, se Corrupo fosse um país sério, mas sabe que se fizer isso a arma estará nas ruas outra vez, assaltando ou matando outra pessoa ou a si mesmo.

Pega um frasco conta gotas sem nome, cheio de Ocitocina (o hormônio do amor como é conhecido), coloca no bolso, liga o carro e sai - A Ocitocina é um hormônio usado contra a TPM e pode ser usado nas igrejas para angariar valores; e por outros malandros para ter a confiança de suas vítimas.

Chega ao centro de Zé Mané quase às 22h. Atravessa a cidade até atingir a entrada da pior favela do município. Entra num bar cheio de gente, onde faz barulho uma vitrola comercial, dessas de fichas, tocando músicas funks, se dirige ao balcão pede uma cerveja, sob os olhares de todos, e o dono do estabelecimento observando seu jeito diferente lhe oferece uma mesa – “Quer uma mesa?”

- “Tem? Não estou vendo nenhuma desocupada. A coisa parece boa, vou ficar por aqui um pouco. Cheguei ontem e acho que me perdi”

- “Aqui ninguém se perde, moço. Vou lhe arrumar uma mesa. Tenho lá dentro” – Diz apontando para os fundos, gritando – “Célia, traga uma mesa!”

- “Pai, não vou arrumar mesa para vagabundo nenhum!!!” – Responde lá dos fundo uma voz feminina e logo surge na porta uma mulher nova , de uns 16 anos, de short curto, corpo novo e bonito e de cabelos longos amarrados num rabo de cavalo, que ao vê-lo muda – “E para o senhor? – e antes que ele possa responder, continua – “Pêra ai. Vou buscar.” – E some de novo.

A garota reaparece arrastando uma mesa e volta para buscar as cadeiras, recusando a ajuda dele.

Ele fica ali bebendo, observando e sendo observado; coloca algumas músicas com a ajuda da garota, pede uma poção de queijo, não arriscando comer nada da vitrine, mas "sem conseguir não desejar aquele corpinho que ainda deve mijar na cama" - Pensa e sorrir de seu desejo. A garota percebe o olhar safado de Lúcio, seu sorriso cínico e pergunta - "O que foi?"

- "Foi o que?"

- "Esse seu olha maroto seguido por esse sorriso sem vergonha?"

-"Pensamento indecente. Só isso. Não posso pensar besteira?"

- "Depende. Nada é proibido. É sobre mim?"

- "Como adivinhou?"

- "Os olhares era pra mim. Ora. Mas posso adiantar que tenho namorado. Aquele de moto do outro lado da rua"

- "Eu também tive várias namoradas, mas hoje estou só. Se você quiser dá uma fugida dele, um pouco, é só falar. Podemos ir para qualquer lugar, menos para o exterior, porque estou trabalhando no Rio atualmente.

Ela sorrindo, responde saindo para o outro lado do balcão - "Vou pensar... Quem sabe?. Posso querer dá o troco a ele. Se você não se importar em servir como instrumento de vingança..."

Lúcio franze a testa, pisca o olho direito e volta para a mesa, resmungando para ela escutar - "Obaaa! Sentimento maravilhoso é este que promove a tal 'vingança'! Tou dentro!"

Cheio de escutar funks e querendo provocar os moleques que colocam essas músicas na vitrola e criar motivos para conversar e saber sobre o tráfico na área, Lúcio coloca 60 músicas de pagodes ao custo de R$ 20,00
(três músicas por um real), ocupando a vitrola com músicas de Zeca Pagodinho, Arlindo Cruz, Marinho da Vila, Benito de Paula, Chico da Silva, Elson do Forogode, grupo Fundo de Quintal, grupo Revelação, Banda Araketo entre outros, dividindo a rapaziada até que um deles vem a ele protestar – “Poxa, cara. Você atrapalhou nosso barato, pô!!! Não viu que estávamos ouvindo fanks?”

- “Nem percebi...” – retruca Lúcio – “eu também gosto de Funks, mas com mulheres se requebrando, deliciosamente, até embaixo com suas minissaias. Tem?”

- “Funk é estilo de vida, cara. E eu tenho minha mulher que dançava para mim. Não está vendo? É cego?. Se você não tem uma, problema seu. Dá vontade de quebrar esta merda de vitrola na sua cabeça. Não faço isso porque o coroa, dono do bar, é gente boa.”


Lúcio olha para o grupo e avista duas garotas, de saias muito curtas. que conversava. Percebe quando uma vem de encontro a ele e puxa o envocadinho que protestava dizendo – “Rodrigo, desse disso, amor. Não vale a pena se estressar com o cara ai. Deixa ele”

Lúcio se levanta, fica em pé, e fala – “É, Rodrigo, não vale a pena, cara. E eu não parei aqui para criar confusão, muito menos para brigar. Vim beber e escutar músicas, se possível, dançar com algumas fêmeas, sentir o corpo e o perfume feminino, pois estou longe de meu ambiente e doidinho para uma safadeza de corpo, com uma fêmea bem fêmea... Essas músicas me faz recordar as mulheres que já tive, já que não tem fêmeas desimpedidas por estas bandas” – Para de falar, toca no ombro do Rodrigo e pergunta na cara de pau – “Empreste-me a sua mulher para dançarmos a música que vai tocar agora, “mal acostumado”, do Araketo?” – E sem ligar para a demonstração de ódio do carinha, se vira para a garota, segura sua mão e confirma o pedido – “Aceita dançar comigo, gatinha?” – Já a puxando para o meio do bar cantarolando – “Mal acostumado. Você me deixoooou mal acostumado, com o seu amor ô! Então volta, trás de volta o meu sorriso, sem você posso ser feliz!...”. – A garota se deixa conduzir, Rodrigo se prepara para agredir o Lúcio e é contido pela turma do ‘deixa disso', arrastado para longe, enquanto Lúcio baila o salão com a garota, ela bem encostada ao corpo dele, de forma quase indecente.

A Música tem fim e, antes de começar a outra. A garota descola o seu corpo do de Lúcio dizendo – “tenho que ir, senão ele fica intragável" – fala se referindo ao Rodrigo. Lúcio aproveita para se apresentar – “Meu nome é Lucio Cantagalo e o teu?”

- “Sirlene” – diz a garota e se afasta indo de encontro ao grupo sentados em mesas, fora, na marquise do Bar.

Lúcio vai à sua mesa, pega a garrafa que está como líquido quente, leva até o balcão e pede outra cerveja, chamando a Célia, filha do dono do Bar, que corre para atendê-lo, dizendo – "Vocês são todos iguais, não importa de que país seja. Já estava querendo a mulher do Rodrigo. Cuidado!"

- “Quem? Eu?
– Se faz de velhaco. – “Eu quero você, Célia. Você me prometeu. Só estava dançando, porque você não quer ou não pode dançar comigo.”

- “Não te prometi nada. Disse que ia pensar. O meu namorado já foi dormir, porque amanhã ele pega cedo no trabalho, numa pizzaria, no Rio. E eu devo ir até as seis horas aqui. Depois que fechamos, as cinco horas, ainda ajudo o meu pai a lavar o Chão...” – Serve a cerveja e completa, balançando a cabeça negativamente – “Viu, como não adianta você me paquerar?" – e finaliza - “Nem se eu estivesse querendo...”

- “E você quer? Querer é poder”

- “Não. Não quero”

- “Para com isso, Célia!!! Adorei o seu nome, seu corpo, o seu jeitinho dissimulado... Deixa-me vir te pegar aqui, as seis horas, para levar à minha casa? Prometo te trazer de volta a noitinha. Podemos almoçar na praia, você de biquíni...

- “Ta... Engane-me!!! Passa nada.”
– Fala nervosa enxugando copos e pergunta – “Aonde você mora?”

- “Em Copacabana.” – Responde. Pega uma mão da garota com suas duas mãos, por cima do balcão, e continua – “Posso passar aqui, as seis, para te pegar? Poxa. Estou louquinho por esse seu corpinho. Por esse seu sorriso, seus lábios manhosos... Deixa?”

- “Não estará com sono. Eu estarei morta de sono de manhã...”

- “Depois que eu abusar desse corpinho, a gente dorme um pouquinho até as 13 horas e depois vamos almoçar na praia. Leva um biquíni por baixo” -Ordena

- “Ai, meu Deus!!! Você está afoito! Eu não tenho um biquíni digno da Zona Sul. E depois das seis horas ainda tenho que tomar banho, me arrumar... Sabe como são as mulheres?”
– Fala em tom baixo, quase sussurrando, nervosa, olhando para trás...

- “Não precisa nada disso. Estou de carro. Vai como está, lá em casa eu te dou banho. É até mais inteligente, já entramos em casa direto para o chuveiro e, o melhor, namorando sob a ducha”. – Sorrir, faz cara de menino pidão e completa – “Hein, aceite? Posso passar aqui, as seis horas?”

- “Está bem. Vou assim mesmo" - Fala mostrando sua vestimenta - "Mas se demorar e eu entrar, não saio mais. Seis horas em ponto. Vai me comprar um biquíni?”

-“Sim e uma roupa para sairmos a noite, para dançarmos no Bola Branca ou numa boate qualquer da Zona Sul ou Oeste, tá?”

- “Você liga de lá e avisa o seu pai, dizendo que está na casa de umas amigas e que vai tirar a noite de folga para se descontrair”

- “Meu Deus! O que vai dá isso?!!!
– Olha para ele e diz – “Ta”

Lúcio paga as despesas e sai feliz por ter encontrado uma fêmea novinha, em folha, para seu deleite amoroso. E que fêmea!

Mas o que veio fazer ainda não conseguiu que é conhecer o tráfico da área, por isso quando chega perto de seu carro e percebe a garota com quem tinha dançado, Sirlene, vindo ao seu encontro, acompanhado por uma galera, em vez de ficar com medo, fica alegre e se prepara para o pior querendo espaço para seguir até a ’boca’. Não tem plano. Quer fazer amizades com quem manda na área e quem tem poder de bandido.

- “Oi, Lúcio, já vai? O Rodrigo foi embora enciumado”.

- “Não. Tem outro bar aberto por aqui, Sirlene? Quero comer alguma coisa, Jogar uma sinuca... Já me perdi mesmo.”

- “Tem mas é uma barra pesada. Perto da ‘boca’. Quando eles estão exaltados, revistam carros, cobram pedágios, batem e matam sem motivo algum, se não for morador da área. Quer arriscar?”


- “Só se você me prometer mandar me cremar, detestaria se enterrado e comido por minhocas” – Rir e pergunta a galera. - "Quem quer carona até lá?" – Vira para a garota e pergunta - "Vai me levar, né Sirlene?"

A garota se vira para a rapaziada e para a outra menina e implora – "Vamos pessoal! É no Bar do Paraibinha. Vamos lá. Neusa, tem aquele negócio que você gosta de cheira. O Lúcio paga..." - Volta-se para o Lúcio e pergunta – "Não paga?"

- “Sim. Pago 4 papeis de R$ 10 mangos e quantas cervejas puderem beber.”

A Neusa exclama – “Demorouuuu!!!” – E o Carro do Lúcio fica cheio de gente. As duas garotas vão no banco da frente, com o Lúcio, e os quatros rapazes no banco de trás.

Lúcio ao volante segue a orientação de Sirlene.

Entra numa ruela estreita, pára, pisca os faróis, espera um moleque olhar para dentro do carro e falar num rádio; atravessa um monte de barracos até sair em uma rua larga, cheia de casas de ambos os lados; Passa por outros moleques com rádios e fogos de artifícios nas mãos. Segue em frente até chegar num largo e escuta o som do bar. Estaciona. Espera todos saírem; fecha o carro e acompanha a turma com as duas mulheres à frente, cumprimentando todos com quem cruza, chamando pelo nome.

Não é um bar de verdade, parece mais uma grande garagem, baixa de, aproximadamente, 2,50 cm de altura, com um balcão nos fundos, cheia de mesas e de cadeiras, todas ocupadas.

Quando Lúcio ameaça ir ao balcão, Sirlene o agarra pelos braços e o puxa para uma porta ao lado, saindo em outra cobertura aonde tem máquinas caça-niqueis, uma vitrola e duas mesas de sinuca: uma ocupada, cheia de gente ao redor, e a outra, incompreensivelmente, vazia.

Um homem pequeno, com feição nordestina (paraibinha), vem logo atrás, trazendo uma mesa, dessa de montar, perguntando – “O que vão beber?”

- “Traga duas cervejas da Brahma” – Diz Lúcio.

- “Antarctica!” – Diz um dos garotos que acompanha o Lúcio. Neusa reclama – “Skol! É mais leve e desce redondo...” – Ai a Sirlene, corta gritando – “Traga Brahma mesmo, Romualdo!!! Quem vai pagar é quem manda. E quem ta pagando é o Lúcio" - aponta para o gringo.

Neusa nem liga e diz – “Foda-se, então. Eu não quero beber mesmo. Só molhar a garganta. Vim aqui por causa do ‘branco’ oferecido” – Se vira para Lúcio e pergunta – “E ai ‘pecinha’, posso ir lá buscar?”

- “Claro” – Diz Lúcio tirando do bolso uma nota de cinqüenta reais e entregando a ela.- “Pegue 4 papeis e traga o meu troco. Quero você aqui, pertinho de mim. Não vai ficar lá, porra!”.

- “Ih!!!... Olha ai, Sirlene, o cara quer nós duas. Será que ele agüenta?”
– Rir enlaça o Lúcio num abraço bem apertado e pergunta com o rosto deitado no peito dele – “Será que você está com essa bola toda?” – Se afasta, sumindo por outra porta, nos fundos da birosca..

O Dono do bar explica que a sinuca vazia está desnivelada. Trás um nível de madeira, entrega ao Lúcio, manda ele se virar se quiser jogar com Sirlene naquela mesa.

Lúcio nem liga. Acerta a mesa mais ou menos e fica jogando com a Sirlene, se esfregando, de pau duro na garota, parecendo bem distraído, quando a Neusa volta chorando, acompanhada por 4 homens armados: um homem de fuzil 7,62; um garoto com bersinha (pistola BERSA THUNDER 380, de nacionalidade argentina), os outros dois com pistolas Imbel, 380 cg, de aço.

- “O que foi, Neusa? Trouxe a encomenda?” – Pergunta Lúcio, enquanto os homens armados, sem tirar os olhos dele se posiciona no balcão..

- “Não. Fininho esta trazendo. Quer saber quem é você. Disse que estou devendo e se o dinheiro for meu ele vai segurar...”

Sirlene abraça a amiga e Lúcio rodeia as garotas, aproveitando para chegar mais perto dos homens armados.

O garoto, armado com a ‘bersinha’, se ouriça e um negrão, com pistola reluzente, toma sua frente, chega mais perto e grita - “Fica ai, gringo. Se mexer vai levar um teco!”

Lúcio fica olhando para o chão, mas de olho em tudo, a espera de quem chega, que parece ser o chefe.

Mal o cara entra, Lúcio se adianta segurando a arma da mão do negrão, enquanto se escora nele para meter o pé na fonte do garoto armado; no giro, toma a arma do negrão, com um torção no dedo e o joga de encontro ao outro homem de pistola.

Quando o que está armado com o fuzil se coloca em posição de tiro, Lúcio já está atrás do tal de fininho, torcendo sua espinha e com a pistola reluzente do Negrão, engatilhada e enfiada por baixo do queixo do bandido chefe, gritando – “Larga esse rifle, idiota!!! Não quero te matar, Porra!!!”.

O cara fica sem saber o que fazer e, então, Lúcio aperta o gatilho em direção a coxa direita do cara, que larga o fuzil com o baque. Lúcio então, com a mesma velocidade, retira a arma do Fininho, o jogando no chão; se adianta ao ferido, chutando sua cara e apontando a arma para todos, ao mesmo tempo, em frações de segundo, conforma o movimento da birosca, falando rouco – “Não se mova!. Vamos pensar. Paradinhos!!!” – Vira-se para o Paraibinha e diz – “Isso serve para todos, inclusive para você Romualdo”.

- “Neusa, recolhe as armas e leva para aquela mesa ali” - aponta para a mesa que já está vazia com os ocupantes encostado na parede. Neusa fica sem saber o que fazer olhando para o Fininho e Lúcio percebe e grita – “Anda logo, mulher, senão eu te dou um tiro no rabo, também. Aqui não tem anjo, porra!” – Neusa recolhe as armas. Lúcio pega o Negrão pelo pescoço, arrasta-o para perto do Fininho; Chuta mais uma vez a cara do garoto que tentava de levantar. E só ai, diz – “Não quero confusão. Trago uma ordem da Colômbia para o chefe dessa área. Quem é?” – Lúcio fala arrastando uma mesa e chamando fininho para sentar – “Escafedem-se todos daqui, quero falar a sós com Fininho. Fora!!! E levem esses dois” – Grita apontando para os feridos e atirando várias vezes com a pistola tomada do fininho, reservando a munição da arma reluzente, depois de olhar seu pente.

Fora do bar a falta de clareza é imensa provocando a maior bagunça, o barulho de fogos soa por toda a favela e o fininho em frente ao Lúcio tenta se explicar – "Você podia ter dito de cara, de onde vinha, guerreiro. Não precisava dá de valente...”

- "Não dei de valente. Eu sou assim. Quem me conhece sabe. Eu vim aqui para conversar com o chefe. Quem é? Você não é? Deve ser o gerente...”

- “É... Eu mando, mas também recebo ordem...”

- “Então, liga para quem dá as ordens e diga que um enviado do Ribas Pesadero está aqui, querendo um favor”.

- “Preciso de meu pessoal para pegar o meu tel no cafofo...”

- “Ok. Vai até a porta e chama o seu protegido. Vou beber uma cerveja. Pode mandar o Romualdo e o pessoal entrar, mas sem armas. O pessoal armado fica lá fora. E você não saia de minha vista. Qualquer coisa é o primeiro a cair.”

- “Fica frio Lúcio, Ninguém vai mais encostar a mão em você enquanto não falarmos com o Resende. Mas fique sabendo que o Ribas está morto... Não sou bobo”.
– Fala indo para a porta e gritando – "Romualdo, serve uma cerveja para nós na mesa do Lúcio". – Se vira para um de seus soldados e diz – “Quinho, vai lá à nossa 'parada' e pega o vermelho e trague aqui, correndo” – Se referindo ao telefone – “E todo mundo pode voltar". - Pára se lembra do ferido e grita - “Cadê o Ricardinho? Alguém leve ele à São José para olhar o ferimento" – Volta-se para o Lúcio, enquanto os freqüentadores vão entrando e diz voltando em direção ao gringo – “Você vai pagar o prejuízo. Espero que tenha dinheiro”.

Lúcio avista Sirlene na porta e grita – "Vem cá, mulher, vai com o bonde do Ricardinho, aquele que dei um tiro e pague a despesa dele e de quem mais foi ferido nesta brincadeira. Depois volta pra cá, até de taxi se não quiserem te trazer, porque eu tenho que sair daqui antes da seis horas” - Puxa um maço de notas de cem reais e lhe entrega 10 notas. – “Isso deve dar, mas se não der, me liga que eu mando mais – E lhe entrega também um de seus cartões com o número de seu celular”

- “Poxa, Cara, você acabou com a minha noite. Eu pensei que fossem me colocar no microondas junto com você...”

- “Vai logo, porra! O cara deve está cheio de dores”

- “Ta não..."
- diz Neusa que também se chega – “Ele ta cheirado. Cheiramos junto...”

- “Vamos, Neusa!”
– diz Sirlene.

- “Não. Corta Lúcio. Ela fica comigo. E bem agarradinho a mim. Eu queria que você ficasse, mas ela é muito irresponsável, se fosse, na volta, eu teria que matá-la.” – Fala puxando a mulher de encontro ao seu corpo.- “Vai logo” – Empurra-a e ela some na porta com outros soldados acompanhando. Nessa hora já tem gente armado dentro do bar. Todos olhando para o Lúcio com respeito, admiração e medo.

Lúcio conhece as pessoas e só deixou entrar os armados, na confusão que se armou na liberação do bar, por isso. Volta-se para o Fininho, que conversava com seus soldados, e diz – “Ribas não morreu. Se tivesse morrido eu não estaria aqui. Pode acreditar”.

O tal Quinho volta com o celular, que não tem nada de vermelho, Fininho liga para o Resende, saindo para trás do balcão da birosca para conversar com seu chefe e fica explicando a confusão a sua maneira. Cinco minutos depois, enquando o Lúcio presta atenção ao ambiente, bolinando a Neusa, ele diz – “O chefe quer falar com você” – Entregando o telefone ao Lúcio

- “Fala cara. Você é o chefe agora?”

Do outro lado, uma voz fala, sem responder – “Poxa, nego, você criou a maior confusão no meu empreendimento e me deu um prejuízo imenso. A comunidade esta parada. As notícia aqui fora, diz que a minha empresa foi invadida pelo BOPE. E você vem dizer para o meu gerente que quer um favor para um morto? Porra! Qualé, Mano? Ta pensando que somos o que? Eu conheci o Ribas”.

- “Pode parar, porra!!! Eu sou Ribas Pesadero! E quem me conhece sabe que não morro assim. Você me conheceu aonde?

Do outro lado silêncio impera e Lúcio insiste – “Alô, Quem é você? De onde me conhece?”

- “É você mesmo. Poxa. Todos aqui pensávamos que você tinha morrido no acampamento das FARCs, em Vila courser".

- “Não. Tomei um dos Helicópteros do Exército da Colômbia e ainda resgatei Santana, Sufero e Arquino; atravessei o rio, destruir o veículo na margem esquerda, mostrando a volta para trio e vindo para Corrupo. Isso faz mais de dois anos. Fiquei aqui, em Corrupo, por sete meses. Depois fui para o México, Estados Unidos e outros países..." – Corta a sua narração para perguntar – “Quem é você? De onde me conhece?”

- “Eu te conheci, não com intimidade, mas fiz “un curso de la guerra” com você, às margens do rio Beni. Lembra-se daquele grupo que o Cartel de Medelín te enviou na divisa da Bolívia com o Corrupo?

- “Não estive coordenando cursos nesta localidade. Para o Medelín, eu dei orientação na fazenda do Santana. Neste tinha. Eram nove brasileiros e três deles eu levei até o acampamento das FARCs. Eram eles: “Fernando, Celso e Ribeiro”. Não tinha nenhum Resende, Nem no grupo dos seis que ficaram". - Nisso o Fininho bate no ombro de Lúcio e resmunga – “É ele” – Quase no mesmo instante, do outro lado, a voz diz – “Sou o Celso, Professor”.

- “O Reclamão?” – Pergunta e continua – Como o mundo é pequeno!

- “Poxa, Professor. A casa é sua. Pode pedi o que quiser. Você manda. Passe o telefone para o meu gerente. Vou mandar providenciar uma festa para você, do jeito que você gosta, cheio de mulheres novas.”

- “Não, 'Reclamão'. Hoje não. Tenho um compromisso, as seis horas. E se for fazer quero fora de Zé Mané” – Passa o número de seu telefone – “Ligue-me quando armar alguma coisa. Agora tenho que ir. Sério mesmo. Depois me ligue”

- “Então, ok. Passe o telefone para o fininho e pode ir tranqüilo, que ninguém te perturbará, mesmo porque eu sei que eles não são nada para você. Você mataria todos e meu prejuízo seria bem maior. Até outro dia, Mestre!”

- “Até” – Lúcio se despede do Resende e devolve o telefone ao Fininho, se preparando para ir embora, quando o seu próprio telefone toca, com a Sirlene do outro lado, dizendo que não vai dar pra chegar antes das seis horas, mas que o dinheiro que levou vai dar para pagar pelos atendimentos aos feridos e, talvez, até sobre.

Lúcio, então, manda Sirlene guardar o troco garantindo que voltará ainda na semana à favela e que cobrará. Olha para o relógio, desencarna de Neusa; paga as despesas com as bebidas e tira-gostos, dá setecentos reais para o dono do bar cobrir os prejuízos com os seus tiros; deixa cinqüenta reais com a mulher, Neusa, para ela se matar cheirando na cocaina; devolve a pistola do fininho e dos outros; entra em seu carro, sob os olhares curiosos, e sai, com o dia clareando, pensando no corpinho franzino da Célia.

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Continua...


Em revisão e edição... Vai acompanhando. Quem sabe você não aprende alguma coisa, mesmo que seja me xingar?

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